21.10.2015
TUZLU SU - SALTWATER: A Teoria das Formas Pensantes

Ricardo Resende, curador e ex-diretor do Centro Cultural São Paulo, escreveu o seguinte artigo a pedido do CCBT após sua viagem à Turquia para abertura de Bienal de Istanbul de 2015, a convite do CCBT.


Organizada por Carolyn Christov-Bakargiev, a exposição recebe o título de TUZLU SU / SALTWATER, em português ÁGUA SALGADA.

A definição do título é dada por Christov-Bakargiev, em curto texto que acompanha a publicação da mostra.

Salt (sodium chloride, NaCL) é um composto iônico de um metal atômico e um não atômico. Ele (o metal) é feito de íons que não se “colam” para formar uma molécula, pois possuem cargas opostas, uma positiva e uma negativa.

Esta diferença de cargas no entanto atrai um para o outro; a atração os mantêm juntos em uma estrutura cristalina que é afetada por pequenas mudanças na temperatura.

Na água, os dois íons separados são atraídos, um pelo lado positivo da molécula e o outro atraído pelo negativo. Esta misteriosa forma de juntar e separar é o que sustenta a linha curatorial da exposição, que não trabalha com o aparente e sim com as ‘chaves’ dadas pelos trabalhos.

Alguns de alta complexidade, que não poderiam ficar na superfície do que se vê, pois abordam temas polêmicos como o genocídio dos armênios, a bioagricultura, a bioarquitetura, identidade, história, matemática, ciências e neurociências, entre outras disciplinas.

Sem muita pretensão, de quem já organizou a maior mostra de todas, a Documenta de Kassel, de 2013, Christov-Bakargiev faz uma exposição na escala das ruas, em lugares nada convencionais como garagens, quartos de hotéis antigos, casa de banho turco e escolas, jogando o público no calor dos becos de Istambul, que pode ser bastante desconfortável para quem não está acostumado a este tipo de caminhadas por uma cidade cheia de acidentes geográficos. O percurso não é para todo mundo, portanto. Necessita certo fôlego e força nas pernas para dar conta do recado da curadora.

São trinta lugares no total que se espalham pela cidade e em Büyükada, uma das Ilhas Princesas (Ilhas Adalar). Grande parte da Mostra está no centro da cidade de Istambul e outros trabalhos bem mais distantes. Dois museus abrigam a exposição - o Museu de Arte Moderna e o Museu da Inocência.

A Mostra busca tratar das contradições da vida na sua estrutura molecular, de formação, e se espalha pela velha cidade como um enorme rizoma.

E não é uma cidade qualquer, é a Istambul, de história milenar, formada por grandes avenidas, ruelas e becos. Centro do mundo na antiguidade. Na verdade ainda o é.

A estrutura urbana da Mostra é feita de duas partes diferentes. Um lado atrai o outro, como na teoria da curadora, os íons de cargas opostas, mas que se atraem.

Está na junção do Ocidente com o Oriente, simbolicamente são dois mundos, dois povos, os europeus e os asiáticos. Duas culturas diferentes, a ocidental e a oriental.

É única cidade que tem em seu território urbano dois continentes. Um lado da Europa e outro da Ásia que vão se encontrar no canal do Bósforo, que também liga dois mares, o Mar Negro e o Mar de Mármara.

Sempre aglutinou gente de toda parte do mundo. Historicamente é a cidade de mercadores dos dois mil minaretes.

A “atração” desses dois polos diferentes se dá no vai e vem da sua população, das pessoas que visitam a cidade e que ficam de um lado para o outro, atravessando as pontes, passando pelos subterrâneos do metrô, nos vagões dos trens, nos barcos que cortam os canais do Bósforo e nos aviões que estão num incessante deslocamento de um lado para o outro pelo ar.

Um estado laico feito com uma imensa população mulçumana que convive com outras religiões e outras culturas.

As ruas abrigam um dos maiores mercados de lojas, antiquários e  restaurantes com toda sorte de mercadorias encontrados no mundo.

Encontra-se gente de toda parte ali.

É este o espaço museográfico da 14ª Bienal.

Exige caminhadas pelas ladeiras e ruas estreitas abarrotadas de gente. Exige pegar barco para ir até as Ilhas Princesas onde se encontra trabalhos dos mais potentes da mostra, como os do sul africano Willian Kendridge, O Sentimental Machine, 2015 e o do argentino Adrián Villar Rojas com sua instalação The Most Beautiful of all Mothers, 2015.

Esta estratégia joga o público em uma verdadeira imersão na cidade. Enfim, é de cidade e de convívio que fala esta grande mostra.

A exposição te força sucumbir à Istambul, que não entende essa proposta curatorial, vai detestar tudo.

E se pode partir para o percurso, desde um pequeno museu que vai se desdobrar em surpresas sensoriais nos trabalhos visuais, de cheiros, nos táteis, até os auditivos que se misturam com todos os sentidos encontrados nas ruas.

O escritor turco Orhan Pamuk está em dois momentos da mostra. No Museu de Arte Moderna onde mostra desenhos feitos em cadernos de anotações repletos de rascunhos visuais do pensamento e dos lapsos da memória. Aparecem nos cadernos pássaros e barcos entre outras coisas que habitam o universo do escritor.

Nestes desenhos é possível sentir o peso de sua escrita que fala da memória do lugar que habita.

O outro momento é o Museu da Inocência, aberto para o público em 2012, também criação de Pamuk.

Este pequeno museu-casa contempla com uma museografia minuciosa as memórias e os sentidos associados aos objetos, fotografias e mobiliário do quotidiano, pertencentes ao personagem da novela “O Museu da Inocência”, Kemal.

Dupla ficção.

A de Kemal no seu tempo, os anos 40 e 50, em Istambul e a do seu mundo particular criados pelo escritor nesse museu.

No último andar da casa são apresentados dois desenhos fundamentais do artista armênio Arshile Gorky (1904—1948) e é aqui, penso, que se deveria começar o percurso e o debate mais importante dessa Bienal, o centenário do massacre do povo Armênio, ocorrido no tempo dos Otomanos, no começo do Século XX, quando foram exterminadas cerca de um milhão e quinhentas mil pessoas.

Coincidentemente completa cem anos em 2015, o ano dessa Bienal.

Nesse sentido, os dois desenhos de Gorky vão dar a medida política dessa exposição - o Ato da Criação, de 1947 e o Vale dos Armênios, de 1944.

Nos dois desenhos se dá a invenção do Expressionismo Abstrato, o começo de tudo desse movimento que predominou na forma de pintar do final dos anos 40 e dos 50.

A explosão das cores sobre o papel depois do massacre do seu povo, é o que expressa Gorki com este desenho.

É uma mostra corajosa por abordar fato histórico tão espinhoso para a Turquia, a questão da Armênia.

O trabalho do norte-americano Michael Rakowitz vai tratar dos artesãos armênios que trabalharam na construção de prédios em Istanbul, em estilo art nouveau.

O artista coletou moldes em gesso da decoração floral padronizada desses edifícios e os dispôs como um grande relevo que ocupa toda uma sala de aula da antiga Escola Primária Grega de Galata.

Um trabalho silencioso que junta os moldes de ossadas de cachorro e os elementos decorativos das fachadas dos edifícios. Uma mistura do passado com os ossos e os fantasmas que o habitam.

Destacaria ainda dois trabalhos que tomam de golpe os sentidos olfativos de quem adentra as instalações.

Primeiro, o da casa de 1850 em ruínas onde viveu exilado Leon Trotsky, por quatro anos.

O argentino Adrián Villar Rojas leva o público a atravessar o jardim tomado por vegetação em que predomina pés de figo.

O cheiro dessa árvore frutífera é inebriante e mexe com a degustação olfativa quando se penetra por uma trilha que leva os que se aventuram nessa experiência, para um píer, igualmente em ruínas, de onde se avista o Mar de Mármara.

Moldes de animais em tamanho natural, todos de frente para quem chega. Uma “manada” de bichos pintados de branco e carregados de materiais parasitários que se decompõem com o tempo implacável. Parecem à espera para adentrar o paraíso.

É uma visão fantástica. Faz-nos lembrar da nossa fugacidade no universo, como em um sonho.

Com o título “Você já viu uma árvore do figo?”, de 2015, a instalação ocupa um apartamento inteiro do Adahan Hotel, um edifício de 1874.

Nessa instalação a artista turca Meriç Algün Ringborg dá a chave com a pergunta, “O que restaria do Paraiso?”

Tanto Ringborg como Villar Rojas, ambos lidam com a árvore do figo, fruto dos mais populares, é parte da alimentação turca.

É como uma árvore daninha que resiste a tudo e que dá fruto, uma flor adocicada e sensual que é para dentro, que não desabrochou. O fruto é  de origem divina para os gregos antigos.

A planta subespontânea na região do Sul da Europa e no Oriente Médio pode nascer na beira de uma calçada, no canto de um muro, no mato que rodeia a cidade, no fundo do quintal das casas, nos fundos de terrenos de estacionamento de carros e em terrenos abandonados.

Este é o gesto do artista nesse trabalho, sair pelas ruas mapeando estas árvores do figo.

Olha por cima dos muros, entrar em propriedades privadas onde visualiza estas árvores sob o olhar de estranhamento das pessoas que se inquietam ao perceber que Ringborg registra as árvores em desenhos, mapas, filma e faz fotografias. Parece não fazer sentido.

Incomodam por que na verdade é Ringborg que as observa diante do estranhamento dessas pessoas que se vêm em um simples e banal gesto do quotidiano.

Alguém que vigia, observa e registra a árvore simbólica de uma cultura.

Descobre-se a presença de uma figueira pelo cheiro que exala, antes mesmo de avistá-la.

É a sensação que tive ao adentrar a Casa de Trotsky. Antes de atravessar o jardim abandonado, senti a presença da árvore.

É um cheiro inebriante que mexe com a minha memória olfativa e que me remeteu à minha infância, quando brincava debaixo de uma figueira no fundo do quintal de casa.

É a primeira planta descrita na Bíblia; sua folha foi usada por Adão e Eva para cobrirem suas “vergonhas”. Também foi usada pela rainha Vitória, a moralista, para tapar a genitália da grande estátua de David.

O site-specific conta com a reprodução de uma pintura nas suas paredes de Adão e Eva nus, fugindo do paraíso, cheios de vergonha com suas partes genitais à mostra. É emoldurada que encontra-se em molde de gesso a folha do figo usada para tapar o sexo.

As folhas se espalham pelo quarto de dormir, cobrem o chão, secam lentamente no ambiente, exalando seu cheiro pelos corredores do hotel.

A árvore, segundo Ringborg, se reproduz nela mesma. Ela tem os dois sexos dentro do seu fruto-flor e a polinização é feita por vespas que entram pelo orifício na sua ponta, o ostíolo, e lá botam suas larvas.

Depois de presas, são digeridas mortas no interior do figo. É assim que a figueira se reproduz e é assim que ela fica adocicada.

É este ciclo natural que o artista trás para o seu trabalho apresentado no apartamento 104B do antigo hotel, no centro velho de Istambul. Uma árvore que tem os dois sexos, é Adão e Eva ao mesmo tempo.

A artista com este trabalho fala de pessoas, de uma árvore, do seu fruto, de identidade, das margens e da memória do lugar.

De ambiguidade da reprodução ainda, do sexo duplo, da simetria entre o amor e a morte, é dessa contradição que trata.

Por fim, o artista brasileiro Cildo Meirelles, que participa com apenas uma pintura, um díptico, exposto no Museu de Arte Moderna, que para a curadora da mostra, tem papel central.

A pintura leva um sugestivo título, o Projeto de buraco para jogar políticos desonestos, 2011, que faz dessa pintura muito atual diante da crise ética por que passa o Brasil. A curadora trabalha com a ideia sobre o  que está abaixo da superfície, qualquer que seja ela. Seria uma forma de incorporar os códigos secretos.

Meirelles retrata Brasília como uma pequena cidade, onde dá ênfase as camadas abaixo da superfície, justifica-se o artista. Pois soube que a crosta sob a capital federal do Brasil seria mais estreita que o resto do mundo. Curioso este trabalho neste momento do Brasil. Vivemos uma crise ética, talvez sem precedentes.

O trabalho de Cildo Meirelles como centralidade, faz da exposição uma mostra atual na discussão que provoca. O que não está na superfície das tensões políticas que dominam nossas vidas na atualidade.  O que não é dito em outras palavras.

Ricardo Resende
Curador
Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea